E começou a Copa…

E depois de quatro longos anos de espera, na última sexta-feira começou o maior evento esportivo do mundo. E eu estava lá, acordado às 9 horas da madrugada para assistir, é claro. Sou fã de Copa do Mundo desde 1994 quando acompanhei pra valer minha primeira Copa ainda com 6 anos. Desde então sofro com uma expectativa grande, sempre que o evento se aproxima. E foda-se toda e qualquer teoria anti-Copa: nenhum outro evento mexe com os sentimentos de tantas pessoas ao mesmo tempo em várias partes do mundo, e isso é o que me impressiona. Se antes o meu envolvimento com o evento era apenas colecionando as figurinhas, agora o lema é: assistir o máximo de jogos por dia.

Mas qual é a minha primeira impressão após 8 jogos dessa edição da Copa? Bom, não posso deixar de esconder uma certa decepção com o futebol apresentado. O que eu vi foram seleções entrando em campo mais preocupadas em não tomar gols do que propriamente em fazê-los. E esse não é o tipo de futebol que contagia nem a mim, nem a ninguém. Apenas uma seleção foi digna de aplausos: a surpreendente Alemanha. Surpreendente porque a seleção chegou com um futebol ofensivo, bem diferente do futebol mecânico das duas últimas Copas.

Não sou um expert em futebol, então é melhor nem me alongar muito em comentários técnicos sobre o tema, afinal a TV e a internet já estão cheios deles. Por isso vou falar um pouco sobre outro fato extremamente importante dessa edição da Copa: o fato dela ser a primeira Copa realizada em continente africano.

Bom, talvez você não entenda muito bem a importância disso. Mas ela é enorme. A Copa do Mundo é um dos mais importante eventos que ocorrem sobre o globo terrestre, inclusive em termos econômicos e políticos. Apenar dos milhões que foram gastos com a construção de modernos estádios no território sul-africano, é difícil medir os benefícios que surgirão para esse país a médio e longo prazo. Além dos próprios estádios que ficarão disponíveis após o encerramento do evento, o turismo do país ganhará um novo ânimo após as imagens e informações sobre ele que estão correndo ao redor do mundo.

E como é legal ver aquele povo tão empolgado em receber as seleções, ou turistas e os torcedores. E como é legal vê-los comemorando os gols de suas seleções. E foda-se qualquer discurso político do tipo: “a Copa desvia a atenção para outros problemas” ou “a Copa não vai resolver os problemas de fome e miséria dessas pessoas”. Nada disso deixa de ser verdade. Mas será que essas pessoas não merecem também um pouco de alegria simplesmente em ver de perto grandes nomes do esporte mundial jogaram? Ou torcerem e se decepcionarem com suas seleções? E a união que as seleções provocam dentro de cada um desses países africanos, que são bastante fragmentados em termos étnicos e culturais, convivendo com várias línguas dentro do território de uma mesma nação. O futebol faz todos torcerem por uma mesma seleção, tomando a sul-africana como exemplo, formada por brancos e negros.

E aquele cara mais loco que o Batman discursando na abertura da Copa, você sabe quem é? Desmond Tutu, consagrado com o prêmio Nobel da paz, e um dos principais nomes na luta contra o Apartheid ao lado de Nelson Mandela. Um negro, evocando milhares de pessoas num país onde até décadas atrás apenas os brancos tinham poder de fala.

Mesmo após vários anos do fim do Apartheid, continuam existindo diferenças que separam brancos e negros na África do Sul. Conforme eu vi numa reportagem do Globo Esporte na última semana, o futebol continua sendo o esporte mais popular entre os negros, enquanto o rugby ainda é o esporte mais popular entre os brancos naquele país. Chega ao ponto de cada uma das etnias declarar que o seu esporte é o mais popular do país como um todo.

Numa outra reportagem apresentada no programa CQC na última semana, vimos que ainda existe bastante resistência quanto ao casamento entre brancos e negros na África do Sul. Quando uma mulher foi perguntada sobre o que acharia se sua filha chegasse em casa com um namorado negro, a resposta foi: “hunn.. eu acharia estranho.”

É claro que não falamos mais do tipo forte de segregação que existia até algumas décadas atrás. Mas podemos dizer que algumas feridas causadas naquela população são tão profundas, que demora um bom tempo para cicatrizarem.

Não é a Copa do Mundo que vai acabar com a segregação dentro daquele país ou daquele continente. Mas é mais um passo, onde eu pude ver brancos e negros jogando e torcendo juntos. Cena essa que meus avós com certeza não pensaram em ver.

Só é triste saber que essa é a primeira e última Copa realizada em continente africano. Isso porque a cada edição, a Copa gera um gasto para o país-cede cada vez maior, de modo que nenhum país africano será capaz de arcar com a grande quantidade de custos que será exigido para as próximas edições do evento. Mesmo o continente sul-americano poderá estar sendo palco de sua última Copa em 2014. A Copa do Mundo tende a se tornar um evento cada vez mais restrito aos europeus e norte-americanos.

Enfim, vamos lá assistir por que outra só daqui 4 anos. Só espero ver mais gols e menos retranca… e que a Argentina se foda.

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Sobre João Paulo

Data Intelligence na Ogilvy. Bacharel em Comunicação Social - Midialogia pela UNICAMP. Me dedico à compreensão, planejamento e execução de estratégias de comunicação em plataformas de mídias sociais. Leio muito sobre sobre Social Media e Transmedia Storytelling. Ver todos os artigos de João Paulo

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